Daki Semiárido Vivo

DAKI - Semiárido Vivo é uma ponte de conhecimento entre os povos que habitam o semiárido

O DAKI – Semiárido Vivo é uma iniciativa de Gestão do Conhecimento e Cooperação Sul-Sul, uma vez que se baseia fundamentalmente no conhecimento gerado e compartilhado pelos atores envolvidos, além de estar intrinsecamente articulado na América Latina. Além disso, o DAKI – SV pretende formar e fortalecer alianças e redes que serão perpetuadas ao longo do tempo.

Um dos princípios-chave da ação é partir da compreensão do conhecimento produzido e mantido pelos povos tradicionais e camponeses, que vivem nas regiões secas da América Latina, e articulá-los com conhecimentos científicos e acadêmicos de forma horizontal. Esta é a base política-metodológica para a sistematização e capacitação em Agricultura Resistente ao Clima do DAKI – Semiárido Vivo.

Sistematizações

As áreas secas da América Latina são habitadas. Sempre foram. O que sabe este povo que permite e permitiu que permaneçam e permanecessem na região resistindo às intempéries do clima? Como as famílias e as comunidades atravessaram tempos hostis de seca? O que elas aprenderam ao lidar com o ambiente semiárido e subúmido? Estas são algumas perguntas que movem o projeto DAKI Semiárido Vivo.

Em busca das respostas, a iniciativa que une três regiões secas da América Latina tem, como uma das atividades o levantamento dos registros – textos, vídeos, publicações, etc – das experiências familiares e comunitárias que apresentam características de resiliência às mudanças climáticas.

Além da coleta de conhecimentos no campo, o projeto DAKI SV também se propõe a construir conhecimentos sobre formas de ser e agir de povos e comunidades que têm promovido a ampliação das capacidades de resiliência frente às mudanças climáticas.

Esse conhecimento se constrói de diversas formas na estratégia do projeto DAKI SV. Uma delas são processos de sistematização por meio de metodologias que permitem a participação das famílias e organizações protagonistas das experiências observadas e analisadas.

Formação

A outra estratégia do projeto DAKI SV de construir conhecimento é promovendo programas de formação para pessoas que atuam no meio rural, sejam elas agricultores familiares, povos originários, populações tradicionais como quilombolas, geraizeiros, vazanteiros e muitos outros, sejam técnicos e técnicas que trabalham com assessorias técnicas em organizações da sociedade civil e em órgãos públicos.

Em 2022 e 2023, serão oferecidos três programas de formação para desenvolver capacidades em indivíduos, coletivos e instituições que ampliem a resistência aos efeitos das mudanças climáticas. Impactos que afetam, principalmente, as regiões secas do planeta, nas quais se incluem os territórios classificados como semiáridos e subúmidos secos.

Os programas de formação deverão beneficiar cerca de 7 mil pessoas de forma indireta e quase 1,8 mil pessoas diretamente.

1º Programa de Formação

1º Programa de Formação acolherá mais de 1,3 mil educandos e educandas e terá um formato híbrido de aulas e acompanhamento pedagógico, com forte ênfase na educação à distância.
A estrutura será em 2 etapas:

1. O “curso” – o coração do Programa 
Será dividido em 4 módulos, com um encontro final de encerramento.

2. Período pós-curso –
Acabadas as aulas, nos próximos 4 meses haverá a implementação dos Planos de Ação em “Agricultura Resiliente ao Clima” para a multiplicação dos aprendizados/ replicação das inovações nos territórios rurais.

O 2º Programa de Formação é direcionado para 400 pessoas – sendo 350 técnicos e 50 agricultores – e será uma capacitação presencial.

O 3º Programa de Formação tem foco nas juventudes rurais. Serão capacitados/as 60 jovens a partir de um desenho semipresencial, com ênfase em intercâmbios e estágios.

Territórios de atuação

Este território fica no Brasil, ocupando 72% da área da região Nordeste e 18% do estado de Minas Gerais. Em toda a sua extensão o Semiárido equivale a 12% do território nacional.

Além de mais populoso do mundo, grande em extensão, o Semiárido brasileiro abriga grande parte da população mais pobre do país.

Dados oficiais apontam que 59,1% de todos as/os brasileiras/os em extrema pobreza vivem no Nordeste (9,61 milhões de pessoas) e a região reúne 32,7% dos municípios com alta vulnerabilidade alimentar e nutricional (um total de 52 municípios).

As/os agricultoras/es familiares da região enfrentam desafios proeminentes de desenvolvimento socioeconômico, bem como acesso limitado a crédito, alimentos e água.
Embora o Brasil seja classificado como um país de renda média-alta, os níveis de pobreza aumentaram 33% de 2014 a 2017, atingindo 23,3 milhões de pessoas.

A região semiárida brasileira sofre problemas históricos crônicos relacionados à escassez de água com secas periódicas. No entanto, a seca de 2012-2017 foi a pior dos últimos 100 anos e exacerbou muitos desafios sociais existentes, causando endividamento das/os agricultoras/es, êxodo rural, doenças e desnutrição. Seu custo econômico foi estimado em cerca de US $ 6 bilhões apenas no setor agrícola.

Também na Argentina, um país de renda média, grande parte das pessoas em estado de pobreza estão estabelecidas na região mais árida do país, o Chaco. A pobreza afeta 32% das/os argentinas/os (14 milhões de pessoas) e 80% das/os moradoras/es do Chaco, que padecem de insegurança alimentar e nutricional e de desnutrição.
O Chaco abriga a maior proporção de comunidades indígenas – nove grupos étnicos diferentes, compostos principalmente por comunidades de caçadoras/es-coletoras/es – e a maior taxa de desmatamento da Argentina.

O Chaco é uma vasta área plana entrecortada por importantes cursos de água e montanhas que possuem florestas adaptadas à seca.

A mudança climática projetada para o Gran Chaco prevê um aumento na temperatura média anual de mais de 1° C até 2040, enquanto que, em algumas áreas, o aumento pode chegar a 1,75° C. Com a alteração do calor, o regime de chuvas também é afetado e a tendência aponta para maior variação na distribuição sazonal e espacial da chuva.

Atualmente, a região tem uma capacidade limitada de adaptação às mudanças climáticas devido à sua forte dependência da agricultura e falta de infraestrutura para gerenciar recursos hídricos.
O Chaco está sujeito a um processo severo de degradação dos recursos naturais e da biodiversidade.

Na área do Corredor Seco em El Salvador, 2,2 milhões de pessoas vivem em situação de pobreza.

Nesta região afetada pela vulnerabilidade climática, 54% das/os suas/seus moradoras/es cultivam grãos básicos – milho e feijão – como principal fonte de alimento e renda.

Lá, a pobreza afeta particularmente os setores mais vulneráveis e tradicionalmente excluídos da sociedade, como povos indígenas, crianças, jovens, mulheres e idosas/os.
Cerca de 38% da população jovem rural (de 18 a 35 anos) está em situação de pobreza, sendo altamente afetados por crimes e violência.
As mulheres são ainda mais afetadas pela pobreza: 42% das que vivem no espaço rural do Corredor Seco, cujas terras são montanhosas desmatadas e degradadas. Suas vidas são marcadas pelas privações da falta de emprego e renda e pelas angústias da violência doméstica que sofrem.

Quase toda área de El Salvador faz parte do Corredor Seco e isso faz deste país um dos mais vulneráveis aos riscos climáticos do mundo.

Nos últimos 40 anos, somente em Candelaria de La Frontera, município de El Salvador, a temperatura média subiu de 20º para 30º.

As projeções para a América Central estimam reduções na disponibilidade de água entre 35% e 63%.