13 de julho de 2022

Em Chiquimula, Guatemala, no centro do Corredor Seco da América Central, o clima é muito árido. Gloria Díaz, líder da Organização de Mulheres Progressistas em Chiquimula, e moradora local, comenta que “a água vinha 2 horas por mês e não podíamos plantar porque 2 horas para passar um mês é difícil”.

O Corredor Seco da América Central atravessa 80% dos países de El Salvador, Guatemala e Honduras. Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), a seca é tamanha que em El Salvador há perdas de 60% nas lavouras de milho. Enquanto em Honduras as perdas nas lavouras de milho e feijão chegam a 80% e na Guatemala há perdas de até 200 mil toneladas nas lavouras de milho e feijão. Perdas de safra causam escassez de alimentos nas famílias produtoras, mas esse cenário está mudando.

Agorecossistemas e integração familiar como resposta à resiliência climática 

Entre Guatemala, Honduras e El Salvador há uma média de 1 milhão 566 mil pessoas em situação de insegurança alimentar. Diante desse problema, muitos dos produtores optam por sistemas agroecológicos resilientes às condições climáticas áridas.

A ideia é conseguir adaptar espécies animais e vegetais às altas temperaturas, para aproveitar e otimizar a pouca quantidade de água e recursos disponíveis. Dessa forma, os agricultores garantem a segurança alimentar de suas famílias e podem optar por vender os excedentes em mercados locais ou mesmo internacionais.

As mulheres da Organização das Mulheres Progressistas de Chiquimula têm clareza de que em um agroecossistema as pessoas ajudam a conservar as espécies quando criam um habitat ideal para sua sobrevivência. Isso é conseguido graças ao uso de recursos naturais, como fertilizantes orgânicos, que ajudam a manter o solo com PH adequado. Uma das grandes vantagens desse tipo de fertilizante é que os insumos encontrados dentro de um mesmo ecossistema podem ser reciclados, como folhas secas e esterco.

“Procuramos uma forma de fazer mini-irrigações artesanais com cola de garrafa e vapor solar. A resiliência é muito forte aqui. Através da captação de água da chuva, telhado e solo, conseguimos aumentar 14 hortas comunitárias e ter um banco de sementes de 39 espécies adaptadas ao clima; e também a conservação do solo a partir da reciclagem. Na questão ambiental, não usamos produtos químicos, fazemos tudo orgânico para nossos pomares. Produzimos até 2.000 quintais para hortas comunitárias”, explica Díaz.

O papel das mulheres na agricultura resiliente às mudanças climáticas

Como a agricultura é a principal atividade exercida no meio rural nestas zonas do Corredor Seco, as mulheres tornam-se produtoras de seus próprios alimentos, cuidando das lavouras de forma semelhante à que fazem com  suas famílias. Ao longo da história, as mulheres foram as principais cuidadoras da família e, por isso, sempre se preocuparam em nutrir seus parentes e levar comida para suas casas.

A Organização das Mulheres em Chiquimula criou alianças que permitiram que 80 mulheres produtoras fornecessem alimentos para 3.056 crianças com a Lei de Alimentação para crianças nas escolas. “Há 5 anos produzimos renda econômica para nossas casas por meio de artesanato, bordados e vendas nas escolas”, diz Diaz.

Segundo a FAO, a contribuição laboral das mulheres latino-americanas na agricultura não é proporcional à sua renda, apesar disso, em 2019 o percentual de mulheres agricultoras era de 40%. No entanto, atualmente, a inserção das mulheres nas atividades agrícolas se solidifica com novas formas de organização, onde elas podem optar por concorrer a cargos políticos ou desempenhar papéis de lideranças comunitárias que lhes permitem fazer alianças com outros agricultores e criar conexões para promover seus produtos no mercado; ou para aprender novas técnicas agrícolas.

“Decidimos criar uma comissão chamada Cuidados Comunitários. As companheiras, mães, guias e promotoras*, ficaram encarregadas de cuidar das crianças para que as demais pudessem trabalhar nos pomares e também implantamos pomares familiares onde elas participam desde suas casas”, expressou a representante de Mulheres Progressistas de Chiquimula. Além disso, ela comentou que graças ao seu trabalho conseguiram organizar 177 jovens da comunidade, que cuidam do meio ambiente junto com elas. Graças às mulheres organizadas hoje, é possível contribuir com as famílias mais vulneráveis ​​da região.

Coleção de Experiências em Agricultura Resiliente às Mudanças Climáticas

Como parte dos processos realizados no âmbito da Iniciativa DAKI – Semiárido Vivo, há um conjunto de experiências sistematizadas, semelhantes às da Organização das Mulheres Progressistas de Chiquimula na Guatemala.

Muitas destas histórias descrevem e comentam os métodos que os agricultores em áreas vulneráveis ​​(onde a água é escassa) usam para economizar recursos hídricos e conservá-los tanto no inverno quanto no verão. Você pode entrar no site para saber mais sobre experiências sistematizadas.

*Guias e promotoras são como as mulheres da própria organização nomeiam os cargos das que cuidam das crianças e que fazem a articulação política com as autoridades, respectivamente. Elas se revezam nestes cargos.

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